Homem com AVC é deixado para trás após veículo ser apreendido pelo SEIMOB de Campo Mourão
Família contesta versão da Prefeitura e afirma que principal revolta não é pela apreensão do veículo, mas pela forma como homem de 50 anos, com limitações após um AVC, teria sido deixado no local; advogado diz que família não recebeu apoio do município
Foto; Reprodução redes sociais Um caso ocorrido em Campo Mourão, na segunda-feira (17), ganhou grande repercussão nas redes sociais e provocou indignação pela forma como um homem de 50 anos, identificado como Nivaldo, teria sido deixado após o veículo em que estava ser abordado e apreendido por agentes da Secretaria Municipal de Infraestrutura e Mobilidade Urbana (SEIMOB).
Nivaldo, que possui limitações de mobilidade após ter sofrido um Acidente Vascular Cerebral (AVC), aparece em imagens sentado no chão, bastante abalado e passando mal, enquanto aguardava ajuda. O vídeo foi gravado por terceiros e rapidamente passou a circular pelas redes sociais.
A situação ocorreu poucos dias depois de a família enfrentar outra perda. Segundo familiares, eles haviam participado, no sábado (15), do sepultamento de um irmão. Em meio ao luto, a família acabou enfrentando a situação envolvendo Nivaldo.
A revolta dos familiares, segundo o advogado Roberson Ferreira Bueno, não está relacionada à apreensão do veículo.
“A nossa preocupação realmente não é com o fato desse ato administrativo, eles não se furtam de entregar o carro. A única preocupação realmente foi o ato desumano de deixar uma pessoa acometida por AVC na situação que ela esteve”, afirmou o advogado.
Prefeitura apresenta outra versão
Em nota oficial, a Prefeitura de Campo Mourão afirmou que o vídeo divulgado nas redes sociais não retrata integralmente o que ocorreu durante a fiscalização.
Segundo o município, o veículo possuía 61 multas de trânsito, que totalizavam mais de R$ 18 mil, além de dois bloqueios judiciais que impediam a emissão do licenciamento e um bloqueio administrativo junto à Polícia Rodoviária Federal (PRF).
A Prefeitura também informou que a condutora estava com a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) vencida havia mais de dois anos.
Ainda conforme a administração municipal, durante a abordagem teria sido informado que outro veículo seria aguardado para realizar o transbordo de Nivaldo, garantindo que ele pudesse ser transportado adequadamente.
A versão apresentada pelos agentes, segundo a Prefeitura, é de que a condutora teria decidido retirar Nivaldo do veículo e afirmado que o deixaria no local para posteriormente divulgar a situação nas redes sociais.
O município também informou que será instaurado um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) para apurar detalhadamente as condutas relacionadas à ocorrência, garantindo o contraditório e a ampla defesa.
Família contesta versão apresentada pelo município
O advogado da família, entretanto, afirma que a versão apresentada na nota da Prefeitura não corresponde ao relato de sua cliente.
Segundo Roberson, a família buscou ajuda e teria recebido a orientação de que poderia acionar o SAMU. A tentativa, porém, não teria sido atendida naquele momento por falta de viatura disponível.
A família então teria buscado ajuda com parentes e amigos.
O advogado também questiona a alegação de que os agentes teriam permanecido no local oferecendo assistência.
“O vídeo não tem uma viatura presente, não está o agente presente, não está mais o veículo da vítima presente, nem sequer o guincho. Então a situação, quando foi gravada, era de total abandono”, declarou.
Para a defesa, a questão central não é discutir se o veículo deveria ou não ter sido apreendido, mas a maneira como uma pessoa com limitações físicas teria sido deixada após a retirada do automóvel.
“Eu me senti menor que um cachorro”
O episódio teria provocado forte impacto emocional em Nivaldo.
Segundo o advogado, o homem estava bastante abalado, apresentou crises de choro e teria dito uma frase que, para a família, resume a sensação provocada pelo ocorrido:
“Eu me senti menor que um cachorro. Talvez um cachorro teria sido melhor tratado do que eu fui.”
O advogado relatou ainda preocupação com o estado emocional de Nivaldo, considerando seu histórico de AVC e o risco de novos problemas de saúde diante de uma situação de forte estresse emocional.
Outro ponto levantado pela defesa é a ausência, até o momento da entrevista, de qualquer contato da Prefeitura ou de algum órgão municipal com a família para oferecer assistência ou mesmo ouvir sua versão dos fatos.
Questionado sobre eventual apoio psicológico ou assistencial após a repercussão do caso, Roberson afirmou:
“Até o momento, aonde eu sei, não.”
Segundo ele, até aquele momento a família não havia sido procurada pelo município.
O advogado informou que a família já registrou boletim de ocorrência para que os fatos sejam analisados e para verificar eventual responsabilização criminal.
A defesa também pretende buscar outras provas e, posteriormente, avaliar medidas para uma possível reparação civil.
Enquanto isso, a Prefeitura anunciou a abertura de procedimento administrativo para apurar a conduta dos envolvidos.
O caso agora deverá ser analisado pelas autoridades competentes, que terão a responsabilidade de esclarecer o que ocorreu desde a abordagem até o momento em que Nivaldo foi encontrado nas condições mostradas nas imagens.
Mais do que a discussão sobre as irregularidades do veículo, o episódio levanta uma questão que permanece no centro da indignação da família: qual deveria ser a conduta do poder público diante de uma pessoa com limitações físicas que permanece sem condições de se locomover após a retirada do veículo que a transportava?
A resposta deverá surgir a partir da apuração administrativa, do registro policial e das demais provas que possam esclarecer a ocorrência.






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